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28 de Março de 2020

Qual é o limite que não devemos ultrapassar na profissão?

Rafaela Cortina, Advogado
Publicado por Rafaela Cortina
mês passado

Estou aqui trabalhando desde as 06 horas da manhã e já sinto a mente um pouco cansada. Fiz alguns pedidos de progressão de regime, saídas temporárias, atendi clientes e ouvi alguns desabafos, tão rotineiros na vida de um advogado.

É certo que os nossos clientes sempre têm muitos problemas para nos contar, muitas reclamações para fazer, e quase em sua totalidade preocupam-se tão somente consigo mesmos, sem sequer imaginar que o advogado também passa por problemas e tem uma vida além do escritório.

Então quem se preocupa com nós? Quem zela por nós? E a resposta é clara, cristalina: nós mesmos. Porque além de resolvermos situações alheias, devemos principalmente cuidarmos da nossa saúde mental, para que sejamos fortes o suficiente para enfrentar a jornada diária.

É preciso estabelecer limites, e nem estou falando de limites com horários de trabalho e de descanso, mas sim o limite em que vamos nos envolver naquela situação, agindo como se aquilo fosse nosso.

Quando comecei a advogar lembro de me compadecer muito com um cliente que estava preso, pois me contou que suas filhas haviam ficado sob a guarda de sua irmã, e que a mesma estava desempregada, passando por dificuldades de toda a espécie.

Eu não cobrei os meus honorários e ainda levei uma cesta básica na casa da referida irmã, e quando cheguei lá percebi que suas filhas tinham celulares melhores do que o meu, e o meu próprio cliente contratou outro advogado cujo qual pagou os honorários que devia a mim.

Hoje em dia eu realizo alguns atendimentos gratuitos quando a situação realmente toca o meu coração, porém, mesmo sendo humana com todos os meus clientes, mantenho certa distancia dos problemas que eles carregam, por entender que não pertencem a mim.

É como entrar numa bolha: você enxerga o que tem fora, consegue fazer o teu trabalho eficientemente, mas aquilo não te atinge mais, não te provoca sofrimento.

Entendo que este seja o limite: ficar com o que tem dentro de nós, deixar para fora o que não nos pertence.

9 Comentários

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Ótimas colocações. Passamos por tantos desafios dentro de um escritório que muitas vezes não conseguimos fazer essa distinção. Bela reflexão. continuar lendo

Prezada Ellen,
Muito grata pelo comentário. Vejo que muitas vezes passamos dos nossos próprios limites por considerar a profissão mais importante, e esquecemos que devemos nos proteger emocionalmente para que possa exigir uma profissão. continuar lendo

Exatamente isso Doutora! Mesmo ainda não sendo advogado quando comecei a estagiar e a atender os clientes eu queria solucionar o problema de cada um e no final a minha saúde mental só piorava. Eu acredito que esse é um problema comum na vida de todos que ingressam na advocacia , querer solucionar problemas além do que te cabe. continuar lendo

Prezado Mateus
Obrigada pelo comentário. A questão principal é que nunca ninguém nos ensina como lidar com clientes, como nos proteger emocionalmente, como manter o equilíbrio. Até mesmo porque o trabalho só será bem feito se estivermos bem. Precisamos muito distinguir qual a parte que nos cabe resolver enquanto profissionais do direito. Mas te desejo muita sorte na caminhada! continuar lendo

Ótimo texto! continuar lendo

Muito obrigada pelo comentário! continuar lendo

Bem isso, Dra. Rafaela! Concordo plenamente com suas palavras. continuar lendo