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28 de Março de 2020

Moça, eu gostaria de falar com a advogada

Os dilemas do início da profissão.

Rafaela Cortina, Advogado
Publicado por Rafaela Cortina
há 18 dias

São 9h da manhã e estou a caminho de atender um caso de família. Não é a minha especialidade, mas ainda não posso recusar clientes, e estes em específico chegaram até mim em decorrência de um caso criminal que atendo na Penitenciária.

Quando chego à porta, eles me olham e perguntam: Moça, eu gostaria de falar com a advogada. Eu os olho e respondo que sou eu, e não posso deixar de notar a surpresa em seus rostos, e sei que internamente estão se perguntando: ela tem idade suficiente para ser advogada, ou ela tem experiência para ganhar essa ação?

Enquanto converso com eles percebo que preciso demonstrar mais segurança ou mais inteligência do que em outras situações, e isso é um pouco cansativo.

E não é apenas com clientes que você precisa demonstrar ser suficiente, mas em todos os lugares: na delegacia, na penitenciária, em audiências. Sempre nos olham com certo descrédito, e mudar essas opiniões requer uma postura muitas vezes dura.

A profissão meus amigos... É para os fortes. É para aqueles que diariamente lutam contra o sistema, lutam para serem tratados como iguais, lutam para verem respeitados os direitos dos seus clientes.

Ao adentrarmos no sistema penal já há uma ressalva: é advogado, está defendendo o bandido! As pessoas olham o advogado como aquele que vai tirar o bandido da cadeia, colocar o infrator em liberdade e pôr em risco a sociedade.

Estão todos enganados. O advogado garante a manutenção do Estado Democrático de Direito, defende a garantia de julgamentos justos e imparciais, e não aqueles movidos por pressões midiáticas...

Aprendi isso depois de alguns anos de advocacia, aprendi isso tendo que mostrar diariamente que sim, sou suficiente. No início da profissão não temos experiência suficiente para poder dizer: “pela minha experiência profissional, isso vai acontecer dessa forma...”, mas temos uma vontade gigantesca de mudar a vida dos nossos clientes.

E não é disso que se trata a profissão?

79 Comentários

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Eu também tinha essa preocupação no início, queria mostrar que sabia, esclarecer tudo. Pensava que quanto mais eu mostrasse que sabia, mais confiariam em mim. Ainda sou um advogado "novo", apesar dos quase três anos de OAB ativa. Até que um dia um cliente me consultou sobre uma ação de reparação de danos envolvendo acidente de trânsito. Fiz um relato completo sobre o caso, na semana seguinte ele me traria o restante dos documentos (B.O. que ele ainda não tinha cópia), assinaria procuração e me pagaria o valor para entrar com a ação. Resultado: nunca mais apareceu, foi sozinho no JEC e conseguiu um acordo para receber seu dinheiro. Desde então, falo o menos possível e essa foi umas das grandes lições que estes três anos me deram: fale o menos possível, sempre, em todas as situações. continuar lendo

Muito complicada essa situação... continuar lendo

Oi Maico, é uma boa dica!
Realmente, as vezes queremos demonstrar que temos conhecimento e acabamos dando a estratégia toda para outra pessoa. Vivendo e aprendendo. Abraços! continuar lendo

Ja perdi a conta de quantas vezes isso aconteceu. Sempre me perguntava pq a pessoa não fechava, ja que mostrei que sei o caminho. Hj em dia pretendo agir assim tbm. Muita informação tbm não é garantia de fechamento de contrato. continuar lendo

@advcarollinechagas não sei se aconteceu mais vezes comigo, mas esse me chamou a atenção porque vi o cliente no fórum, saindo da sala de audiências, um mês depois de ter falado comigo. Fui pesquisar os processos no nome dele e descobri. continuar lendo

Talvez uma solução para essas situações é dar seu ponto de vista de uma maneira mais generalista sobre aquele assunto e cobrar pela consulta, onde você abordará todos os detalhes sobre o caso do cliente. Se ele não fechar contigo, pelo menos você já criou uma boa imagem com ele e recebeu os honorários de uma consulta processual. Se for um caso complicado, é bem provável que ele volte arrependido futuramente por não ter encontrado um profissional apto para resolver a lide.

Ainda não advogo (obrigado COVID-19), mas já vi alguns colegas que abordam essa estratégia continuar lendo

Enquanto as pessoas pensarem que existe um modelo de advogado, essas situações vão acontecer. Imagina eu, que tenho cara de menor de idade rs

Não desanimar é o segredo, que nem sempre é fácil de cumprir rs continuar lendo

Oi Alice

Exatamente! As pessoas ainda pensam que o advogado necessita ter um certo perfil para ser considerado "bom advogado". Lembro que eu tinha um colega que admirava muito, era um grande criminalista da minha cidade. Aí um dia eu fui ler uma defesa prévia que ele fez em um processo e pensei: eu posso fazer isso! E sim, podemos vencer esses estereótipos que existem em nosso meio, sempre com trabalho e perseverança. Abraço! continuar lendo

Doutora, ano passado, no meu último ano de faculdade, eu estava atendendo uma parte na Defensoria que achou que eu tinha 15 anos. Minha situação é desesperadora! continuar lendo

Já passei por situação semelhante, por não ter escritório físico.
Tenho 1,5 anos de ordem, atendo em uma estrutura da OAB GO chamada meu escritório, uma espécie de escritório compartilhado, onde reservamos um horário e atendemos o cliente, alguns atendo no fórum ou em suas próprias casas.
Estava praticamente fechando uma causa relativa a um testamento que estava sendo questionado na justiça, quando o cliente percebeu que não tinha um escritório próprio foi para um escritório relativamente conhecido aqui, pagando bem mais do que o meu preço. E não foi barato, pois eu descobri que se cobrar muito baixo o cliente não confia.
Cobro no minimo preço de tabela continuar lendo

Oi Silas,
Incrivelmente isso é verdade... parece que o cliente não confia quando cobramos menos do que o colega ou quando não estamos em um escritório grande, com secretária, café e grande demora para serem atendidos. Enfim, esses itens passam longe de serem garantidores de êxito em ação. Obrigada pelo comentário. continuar lendo

E um escritório grande nem sempre é garantia deu um bom serviço. Já vi algumas bancas de Brasília fazendo barbaridades em processos de inventário quando eu trabalhei na Defensoria. continuar lendo

Adorei o "texto" desabafo...
E eu que tenho já tenho meus dez anos de profissão, aos 33, e, por parecer mais nova, perguntam se eu sou estagiária, se sou MESMO advogada, me desmerecem em audiência, entre outros. Não me dou por vencida, mas temos de ter bastante jogo de cintura... continuar lendo

É verdade. Pra mim acontece muito em delegacias isso. Quando entro na sala onde vão interrogar meu cliente sempre me olham e devem pensar: é essa a advogada? sim, é essa! E é essa que vai tirar o cliente dessas acusações de uma forma que vocês jamais viram. hahaha. Pelo menos saio de lá respeitada!! continuar lendo